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Sur mes cahiers d'écolier Sur mon pupitre et les arbres Sur le sable sur la neige J'écris ton nom
Sur toutes les pages lues Sur toutes les pages blanches Pierre sang papier ou cendre J'écris ton nom
Sur les images dorées Sur les armes des guerriers Sur la couronne des rois J'écris ton nom
Sur la jungle et le désert Sur les nids sur les genêts Sur l'écho de mon enfance J'écris ton nom
Sur les merveilles des nuits Sur le pain blanc des journées Sur les saisons fiancées J'écris ton nom
Sur tous mes chiffons d'azur Sur l'étang soleil moisi Sur le lac lune vivante J'écris ton nom
Sur les champs sur l'horizon Sur les ailes des oiseaux Et sur le moulin des ombres J'écris ton nom
Sur chaque bouffée d'aurore Sur la mer sur les bateaux Sur la montagne démente J'écris ton nom
Sur la mousse des nuages Sur les sueurs de l'orage Sur la pluie épaisse et fade J'écris ton nom
Sur les formes scintillantes Sur les cloches des couleurs Sur la vérité physique J'écris ton nom
Sur les sentiers éveillés Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent J'écris ton nom
Tradução de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira:
Nos meus cadernos de escola Nesta carteira nas árvores Nas areias e na neve Escrevo teu nome
Em toda página lida Em toda página branca Pedra sangue papel cinza Escrevo teu nome
Nas imagens redouradas Na armadura dos guerreiros E na coroa dos reis Escrevo teu nome
Nas jungles e no deserto Nos ninhos e nas giestas No céu da minha infância Escrevo teu nome
Nas maravilhas das noites No pão branco da alvorada Nas estações enlaçadas Escrevo teu nome
Nos meus farrapos de azul No tanque sol que mofou No lago lua vivendo Escrevo teu nome
Nas campinas do horizonte Nas asas dos passarinhos E no moinho das sombras Escrevo teu nome
Em cada sopro de aurora Na água do mar nos navios Na serrania demente Escrevo teu nome
Até na espuma das nuvens No suor das tempestades Na chuva insípida e espessa Escrevo teu nome
Nas formas resplandecentes Nos sinos das sete cores E na física verdade Escrevo teu nome
Nas veredas acordadas E nos caminhos abertos Nas praças que regurgitam Escrevo teu nome
Tradução de
Carlos Domingos:
Sobre os cadernos da escola
Sobre a carteira e as árvores
Sobre a areia sobre a neve
Escrevo o teu nome
Sobre as páginas já lidas
Sobre as páginas em branco
Pedra papel sangue ou cinza
Escrevo o teu nome
Sobre as imagens douradas
Sobre as armas dos guerreiros
Sobre a coroa dos reis
Escrevo o teu nome
Sobre a floresta e o deserto
Sobre os ninhos e as giestas
Sobre o meu eco da infância
Escrevo o teu nome
Sobre os encantos das noites
Sobre o pão branco dos dias
Sobre as estações mescladas
Escrevo o teu nome
Sobre os meus trapos de azul
Sobre o tanque sol melado
Sobre o lago lua viva
Escrevo o teu nome
Sobre os campos e o horizonte
E sobre as asas dos pássaros
Sobre o moinho das sombras
Escrevo o teu nome
Sobre a sopro duma aurora
Sobre o mar e sobre os barcos
Sobre a montanha demente
Escrevo o teu nome
Sobre as espumas de nuvens
Sobre o suor da tormenta
Sobre a chuva espessa e vã
Escrevo o teu nome
Sobre as formas cintilantes
E sobre os sinos das cores
Sobre a verdade palpável
Escrevo o teu nome
Sobre as veredas abertas
Sobre as estradas sem fim
Sobre as praças trasbordantes
Escrevo o teu nome
Sur la lampe qui s'allume Sur la lampe qui s'éteint
Sur mes maisons reunites
J’écris ton nom
Sur le fruit coupé en deux Du miroir et de ma chambre Sur mon lit coquille vide
J'écris ton nom
Sur mon chien gourmand et tendre Sur ses oreilles dressées Sur sa patte maladroite J'écris ton nom
Sur le tremplin de ma porte Sur les objets familiers Sur le flot du feu béni J'écris ton nom
Sur toute chair accordée Sur le front de mes amis Sur chaque main qui se tend
J'écris ton nom
Sur la vitre des surprises Sur les lèvres attentives Bien au-dessus du silence J'écris ton nom
Sur mes refuges détruits Sur mes phares écroulés Sur les murs de mon ennui J'écris ton nom
Sur l'absence sans désir Sur la solitude nue Sur les marches de la mort J'écris ton nom
Sur la santé revenue Sur le risque disparu Sur l'espoir sans souvenir J'écris ton nom
Et par le pouvoir d'un mot Je recommence ma vie Je suis né pour te connaître Pour te nommer
Liberté.
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Paul Éluard
(Escrito em 1942 durante a ocupação da França pelos nazis)
Na lâmpada que se acende
Na lâmpada que se apaga
Em minhas casas reunidas Escrevo teu nome
No fruto partido em dois de meu espelho e meu quarto Na cama concha vazia Escrevo teu nome
Em meu cão guloso e meigo Em suas orelhas fitas Em sua pata canhestra Escrevo teu nome
No trampolim desta porta Nos objetos familiares Na língua do fogo puro Escrevo teu nome
Em toda carne possuída Na fronte de meus amigos Em cada mão que se estende Escrevo teu nome
Na vidraça das surpresas Nos lábios que estão atentos Bem acima do silêncio Escrevo teu nome
Em meus refúgios destruídos Em meus faróis desabados Nas paredes do meu tédio Escrevo teu nome
Na ausência sem mais desejos Na solidão despojada E nas escadas da morte Escrevo teu nome
Na saúde recobrada No perigo dissipado Na esperança sem memórias Escrevo teu nome
E ao poder de uma palavra Recomeço minha vida Nasci pra te conhecer E te chamar
Liberdade
(Tradução feita ainda na década
de 40)
Sobre a lâmpada que acende
Sobre a lâmpada apagada
Sobre as minhas casas juntas
Escrevo o teu nome
Sobre o fruto dividido
Entre o meu espelho e o meu quarto
Na concha aberta do leito
Escrevo o teu nome
Sobre o cão terno e guloso
Nas suas orelhas tensas
Na sua pata sem tino
Escrevo o teu nome
Sobre o meu degrau da porta
Sobre os objectos da casa
Sobre as labaredas vivas
Escrevo o teu nome
Sobre a carne concedida
Sobre a fronte dos amigos
Sobre cada mão estendida
Escrevo o teu nome
Sobre o vitral das surpresas
Sobre os lábios expectantes
Muito acima do silêncio
Escrevo o teu nome
Sobre os meus refúgios gastos
E os faróis desmoronados
Nas paredes que me enfadam
Escrevo o teu nome
Sobre a ausência sem desejo
Sobre a solidão despida
E sobre os degraus da morte
Escrevo o teu nome
Sobre a saúde que volta
E o perigo que já passou
Sobre a esperança esquecida
Escrevo o teu nome
Com o poder duma palavra
Eis que recomeço a vida
Eu nasci para te aprender
Para te invocar
Liberdade
(Tradução feita na Cadeia do Forte de Peniche, Setembro de 1973)
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